Ouvir a luz

Ouvir a luz

“A luz é uma espécie de olhar sobre nós mesmos” 

Valter Hugo Mãe 

O que é luz? Sempre falamos no assunto, mas nunca realmente pensamos O QUE É LUZ?? 

Pergunto-me buscando uma compreensão para além do mental. 

Fisicamente, é a parte visível do espectro eletromagnético. Mas, para além disso, luz é mágica e, como toda mágica, é transformadora — a mágica construção da realidade. Se o sol explodir agora, continuaremos a ver seu passado por 8 minutos como se o astro estivesse intacto pois ele está a 8 min/luz daqui. A luz carrega tempo e espaço; é uma metáfora do real. 

Luz, assim, é esta “onda de realidade” que percorre “o nada” como energia pura; que, ao encontrar a matéria, reage, vira onda e, ao chegar aos nossos olhos, constrói essa realidade em nosso cérebro que sensorialmente traduzimos em existência. Ao trabalhar com a luz trabalhamos com uma ferramenta capaz de nos convencer de uma realidade. O mesmo acontece num projeto luminotécnico.   

Porém, não basta a compreensão física da luz — é a nossa compreensão filosófica que permitirá que nossa existência interior brilhe. E isso vale tanto para a luz natural como a artificial: é a compreensão física aliada à tradução simbólica e filosófica da luz que nos possibilita um aprofundamento no conhecimento do que chamamos realidade e também de nós mesmos.  A luz é cheia de paralelos na nossa existência. Uma pequena chama no pior dos breus sempre será uma grande orientadora que traz um efeito tranquilizador.  

O universo é cheio de luz e vive na escuridão. A luz só aparece quando se encontra com a matéria que cria anteparos que refletem a sua presença — pode ser um planeta, uma parede ou “nosso ser” interior. Originalmente, no funcionamento das lâmpadas, a energia elétrica que passava pelo fio só virava luz quando encontrava resistência e a superava — e assim também é a vida. Nessa mesma linha de pensamento, o led (a evolução da luz por resistência) é uma espécie de domínio quântico que nos mostra que devemos gerar luz com menos energia e sem desperdiçar em calor. Ainda vejo muitas pessoas tentando gerar luz, porém desperdiçando muito calor em emoções brutas e intensas. Poderíamos ser mais leds. 

O termo “dar à luz”, compreendo com crase, pois é uma mãe que oferece um filho à realidade. E por aí vão os paralelos possíveis. Minha experiência como arquiteto e em projetos de luz artificial me fez adquirir um repertório de observação da luz como um estímulo sensorial capaz de criar realidades, mas que é absorvida de forma individual por cada um. 

Sabemos que a luz exerce grande influência no comportamento de todos os seres vivos. Acredito que o formão que entalha nossa alma é o modo como percebemos e reagimos à luz; países com luz natural intensa refletem uma população intensa na mesma escala. Mas onde existe luz existe sombra na mesma proporção. O Brasil é um país de contrastes marcados pela presença de uma luz intensa que se recusa a qualquer pedido de licença. Isso nos faz cheios de luz mas também cheios de sombras. Somos passionais e explosivos, talhados por essa luz intensa que brilha. Ela influencia o consciente coletivo que rege um povo, mas não podemos deixar de observar a individualidade das reações de cada um. Afinal, a existência é tão individual e diversa que a mesma luz pode criar realidades totalmente opostas. O estímulo é o mesmo, mas a percepção é individual. Comecei a aplicar esta observação a meus projetos e aprendi que eles devem ser compatibilizados e harmônicos com o contexto externo e com o interno (uma luz invisível que cada um carrega). 

Contexto externo 

Certa vez fiz um projeto para um amigo em Londres. Mandei um projeto cênico, cheio de contrastes, com uma luz de baixa intensidade. Ao apresentar a ideia, logo ele me respondeu: não esquece que eu moro em Londres. Lá a luz natural chega a ser quase cinco vezes menor do que em alguns pontos do Brasil. A necessidade dele para uma quantidade de luz artificial era totalmente diferente da de um brasileiro que se vê saturado de luz no dia a dia. Um projeto que funciona aqui, não funcionaria lá.  

Do mesmo modo, bem-estar para mim não é bem-estar para o outro. A mesma luz pode ser percebida de forma totalmente diferente. Uma luz baixa e cheia de sombras, dependendo de seu contexto externo, pode se traduzir como acolhimento e aconchego para uns, ou medo e insegurança para outros. O contexto do entorno pode modificar totalmente a percepção para o mesmo projeto de luz. 

A mesma luz, a mesma leitura? 
Qual delas transmite mais segurança? 

Contexto interno 

Para ser um desenhador de luz é preciso um olhar curioso e revelador sobre a pessoa que irá vivenciar esse projeto. A experiência, a vivência e a observação desse universo têm me mostrado que a capacidade de as pessoas conviverem com sombras no seu entorno está diretamente ligada à sua capacidade de conviver com suas próprias sombras. Faço um exercício em minhas aulas: apresento um manequim e um cenário iluminado e depois sombrio e peço para me descreverem o que sentiram. A presença das sombras nessas imagens tende a conduzir para sentimentos de medo, tristeza, tensão — sentimentos de nossas próprias sombras. A presença de sombras em um projeto lembra a existência das nossas próprias. 

Pessoas em fase de depressão ou com sinais de algum distúrbio psicológico necessitam de projetos mais claros e uniformes. A luz pode até ser baixa, mas a sombra não pode ser intensa. 

Um de nossos desafios de crescimento como seres humanos está na capacidade de nos relacionarmos com nossas sombras (vide Peter Pan, eternamente criança, com sua sombra sempre em fuga). Aí entra uma questão importante: a luz só se revela bela quando a sombra existe e, quanto maior a presença da sombra, mais bela e mágica ela se apresenta. Assim é mais um paralelo que sua natureza nos ensina. 

Com isso cheguei à conclusão de que se deve pensar em um projeto de sombras. Afinal de contas, são elas que nos causam maior reação. Ensinar as pessoas a lidarem com a presença física da sombra, entendendo seus limites, é uma forma de se autorreferenciar e de desenvolver uma empatia com o usuário. Já num projeto de uso coletivo, conduzirá para a seleção do perfil do usuário. 

Observe as sombras nos projetos! 

Há a luz que funciona e a luz que emociona. O excesso de luz sempre funciona, mas é somente a sombra que emociona. Choramos no escuro. Há de se buscar a qualidade da luz pelo sentir e pensar o caminho das sombras. Por isso, quando faço um projeto, não penso na luz, mas sim nas sombras. “Compreender um conceito pelo seu contrário é fotografar sua alma”, já dizia Nilton Bonder, em A alma imoral, na adaptação muito bem montada por Clarice Niskier. O mesmo vale para nossa luz interna. Reconhecer nossas sombras e acolhê-las é glorificar a nossa luz.  

Mais do que conhecimento físico sobre luz é necessário também seu conhecimento filosófico e sensorial.  Tudo é luz, física e filosófica. Apenas, Luz! Uma luz interna que cada um carrega e se afina com as luzes do entorno. Ao compreender essa relação podemos dialogar e escutar o que ela nos conta e entender que luz é poesia para a alma. 

Quarto com janela grande ao lado de pia

Descrição gerada automaticamente com confiança média

A luz vai diretamente para o chão, evitando que o vidro vire espelho. 

As sombras dão a personalidade que o imperfeito pede. 

Vitor Penha,  

Arquiteto formado pelo Mackenzie 

Diretor de arte da Incorporadora Sustentável Somauma 

Professor de Luminotécnica do curso on-line Ebac  (https://ebaconline.com.br/lighting-design) 

Garimpeiro de memorias por paixão 

Poeta pela vida 

Instagram: @penha.vitor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *